OPERAÇÃO CAVALO DE TROIA

MP aponta pagamento de propina a vereadores de Bauru para aprovar concessão do lixo

Documentos da investigação indicam que a Estre Ambiental teria realizado pagamentos ilícitos a parlamentares. Um dos repasses, de R$ 750 mil, ocorreu no mesmo dia em que a Câmara votou o projeto de concessão dos serviços de resíduos sólidos.

Redação ConectaBauru·30 de outubro de 2026, 08:53
MP aponta pagamento de propina a vereadores de Bauru para aprovar concessão do lixo
Foto: ConectaBauru / Bauru

Novos documentos do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) apontam suspeitas de que vereadores de Bauru teriam recebido propina da empresa Estre Ambiental para aprovar o projeto de concessão dos serviços de gestão de resíduos sólidos do município. As informações fazem parte das investigações da Operação Cavalo de Troia, conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).

Segundo a Promotoria, as articulações teriam contado com a participação direta do ex-secretário municipal de Governo Renato Purini, marido da prefeita Suéllen Rosim (PSD), que está preso preventivamente desde 16 de outubro.

De acordo com os documentos, os repasses teriam sido intermediados pela empresa Core Investimentos. O Ministério Público afirma que notas fiscais emitidas entre dezembro de 2025 e agosto de 2026, sob a justificativa de serviços de consultoria, somam quase R$ 4 milhões. Para os investigadores, os valores indicariam um fluxo financeiro estruturado, e não pagamentos isolados.

Um dos pontos destacados pelo MP é um pagamento de R$ 750 mil realizado em 8 de setembro, mesma data em que a Câmara Municipal de Bauru votou o projeto de lei que autorizava a concessão dos serviços de gestão de resíduos sólidos. Mensagens analisadas pelos investigadores indicariam que, naquele dia, Purini manteve intensa articulação política para garantir a aprovação da proposta.

A Promotoria também menciona outros pagamentos de R$ 650 mil e R$ 560 mil, que teriam sido destinados a agentes públicos. Em manifestação contra o pedido da Estre Ambiental para desbloquear R$ 20 milhões em bens e ativos financeiros, o Ministério Público questionou a alegação da empresa de dificuldades para manter o pagamento dos salários dos funcionários.

A investigação ainda aponta que Mário Luiz Silvério, ligado à Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), teria solicitado e recebido mais de R$ 500 mil em vantagens indevidas para direcionar estudos técnicos favoravelmente à concessionária.

EMPRESA É APONTADA COMO INTERMEDIÁRIA

Segundo o Ministério Público, a Core Investimentos teria sido utilizada para intermediar pagamentos destinados a Renato Purini. A empresa foi criada em agosto de 2025, com capital social reduzido e sem funcionários registrados.

Os investigadores também identificaram movimentações expressivas na conta da empresa. Em 19 de dezembro de 2025, data em que Jonathan Moga Pinto assumiu a direção da firma, a Estre Ambiental teria realizado repasses de R$ 750 mil e R$ 225 mil.

Para a Promotoria, a ausência de estrutura operacional e a falta de comprovação dos serviços contratados são elementos que levantam suspeitas sobre a finalidade das movimentações financeiras.

A Justiça determinou o bloqueio de R$ 20 milhões em bens e ativos dos investigados Renato Purini, Marcos Libanore Caldeira, Jonathan Moga Pinto e Kauê Tadeu Daher Crudeli.

INVESTIGAÇÃO ENVOLVE CONCESSÃO DE R$ 5,2 BILHÕES

A Operação Cavalo de Troia apura suspeitas de direcionamento da licitação para a concessão dos serviços de gestão de resíduos sólidos de Bauru. O contrato, previsto para durar 30 anos, foi estimado em mais de R$ 5,2 bilhões.

De acordo com o Ministério Público, as possíveis irregularidades teriam começado ainda na fase de preparação do projeto, envolvendo estudos técnicos, modelagem econômica, critérios de habilitação e elaboração dos documentos administrativos.

A suspeita é de que agentes públicos, representantes de empresas privadas, consultores e intermediários tenham atuado de forma coordenada para favorecer a Estre Ambiental na disputa.

O procedimento licitatório foi suspenso pelo Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP), após questionamentos relacionados ao edital.

RENATO PURINI SEGUE PRESO

Renato Purini foi preso em 16 de outubro, durante a segunda fase da Operação Cavalo de Troia. Atualmente, está na Penitenciária II de Potim, no Vale do Paraíba.

O ex-secretário teve um pedido de habeas corpus negado pela Justiça e permanece em prisão preventiva. Em depoimento ao Ministério Público, realizado por videoconferência no dia 22 de outubro, ele optou por permanecer em silêncio.

Após a prisão, a prefeita Suéllen Rosim exonerou o marido do cargo de secretário municipal de Governo.

A prefeita não é apontada como alvo da investigação criminal do Gaeco, mas responde a uma Comissão Processante na Câmara Municipal, que apura possível omissão ou negligência na condução do processo de concessão.

Durante depoimento à comissão, Suéllen afirmou que o marido não participava das decisões relacionadas ao edital, negou ter recebido vantagens indevidas e declarou desconhecer encontros entre Purini e representantes da Estre Ambiental.

O QUE DIZEM OS ENVOLVIDOS

Após a prisão de um executivo da empresa, a Estre Ambiental informou que está colaborando integralmente com as investigações e confirmou que não pretende participar da licitação do lixo em Bauru.

A Prefeitura de Bauru também declarou que vem colaborando com as autoridades, fornecendo documentos e informações solicitadas, e que continuará contribuindo com o andamento das apurações.

A reportagem da TV TEM informou que procurou a defesa de Renato Purini, mas não obteve resposta até a última atualização.

As investigações seguem em andamento, e as suspeitas apontadas pelo Ministério Público ainda dependem de apuração e decisão judicial.

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